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21 de Outubro de 2020

Serviço Público ou Advocacia?

Opinião de quem conhece os dois lados.

Paula Lidiane de Souza Prado Gabriel, Advogado
há 2 meses

Depois de quase 14 anos no serviço público, no dia 12 de junho de 2018 eu oficializei meu pedido de exoneração do cargo de Analista Judiciário do Tribunal Regional Federal da 1ª Região.

"Você deve estar passando por um período de insanidade (em tom de brincadeira)?" Foi o mais sútil que ouvi nos dias que antecederam o meu pedido.

Eu sei que muitas pessoas, em especial aqueles com os quais eu convivia no serviço público, ainda hoje não acreditam que não me arrependi de trocar o serviço público pela advocacia.

Mas, eu digo: não me arrependi.

E eu explico o porquê.

Caros colegas, eu seria muito hipócrita se eu falasse que a estabilidade e o dinheiro certo no fim do mês não são atrativos mais que interessantes no serviço público.

Porém, como todo campo profissional uma série de fatores positivos e negativos compõem nosso dia a dia. E, ainda hoje, persiste no imaginário brasileiro que todo trabalhador do serviço público vive um verdadeiro “conto de fadas”.

Enganam-se.

Como disse, o serviço público tem os seus percalços.

E, sinto-me à vontade para dizer isso, porque as estatísticas do Conselho Nacional de Justiça estão aí para ratificar minhas afirmações. Trabalhar num órgão público pode exigir muito mais dos servidores do que a maioria das pessoas imagina.

O número de processos não diminuem porque não há servidores, magistrados suficientes, e a equação demandas / recursos humanos do Judiciário não fecha.

Com isso, por mais assistência que o órgão procure direcionar aos seus servidores, muitos são acometidos de enfermidades físicas e psicológicas, e o estresse é uma constante para um grande número de agentes públicos.

Ah, Paula, mas o salário alto, a impossibilidade de perder o emprego compensam.

Nobres colegas, os servidores públicos podem perder seus cargos, e às vezes, isso é justamente o gatilho de todo estresse que eu falei.

Analisa comigo, você pode perder seu emprego, e não raramente você se vê numa oposição humanamente impossível (eu digo quantitativamente) de cumprir suas obrigações.

Nem todos os gestores públicos estão atentos a incoerência da equação acima mencionada.

Enfim...

Quanto a advocacia.

Apesar de eu brincar que eu tenho uns 13/14 anos de “advocacia do lado contrário”, do lado do Judiciário, mais de um ano após passar a utilizar “a vermelhinha”, afirmo que trago comigo novo respeito pela classe.

Digo isso, porque, certamente, na advocacia, também, nem tudo são flores, mas os pontos positivos são sensacionais.

Eu quero compartilhar duas ou três impressões sobre o exercício da profissão.

Uma das questões mais motivadoras da advocacia é a possibilidade real de crescimento profissional.

No serviço público você tem um salário fixo, e é isso, você tem um salário fixo.

Às vezes, você pode passar anos e anos fazendo a mesmíssima coisa, e ganhando praticamente o mesmo salário.

Na advocacia as incertezas existem, mas é possível que um trabalho exaustivo seja remunerado por um montante proporcionalmente grande.

Essa não é uma realidade no serviço público.

Na advocacia você pode direcionar o exercício profissional (em algum ponto da sua carreira, pelo menos) para área de atuação que é sua paixão, que você se identifica, onde trabalho e prazer podem ser elementos do seu dia a dia.

Essa é uma rara realidade para o serviço público (eu disse rara, não inexistente).

Na advocacia é possível escolher ter ao lado pessoas com quem você tenha afinidade, tanto no campo profissional como pessoal, e isso é um privilégio.

Com a seleção essencialmente intelectual dos concursos públicos, pessoas das mais diversas origens se juntam num ambiente demasiadamente fechado para levar a cabo o serviço público.

É por isso que na lei n. 8.112/90 “cordialidade” é relacionada como dever do servidor público. Se é que vocês me entendem.

Tendo vivenciado na prática os pros e contras do serviço público, tentei me preparar financeiramente para em determinado momento poder dar o rumo que melhor me aprouvesse, e em 12/6/18 esse dia chegou.

Ainda estou formando meu trajeto fora do serviço público, mas até aqui uma única certeza, a de que tomei a decisão correta.

Meus amigos, deixo nada mais que impressões pessoais da minha trajetória profissional, cujo percurso está longe de terminar.

E, para finalizar deixo aqui uma simples pergunta:

Você realmente tem perfil para adentrar no serviço público? Ou apenas desconhecem seus talentos que poderiam ser direcionados ao setor privado?

Espero que, compartilhando minha experiência, meu texto ajude de alguma forma, em especial a desmitificar toda glória que atribuída ao serviço público.

A advocacia tem muito a nos oferecer, bacharéis em Direito.

2 Comentários

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Parabéns Doutora, nada melhor para comemorar o dia do advogado, do que com esse maravilhoso texto. continuar lendo